Eu, o trabalho
e as crianças
Conciliar
educação dos filhos e carreira é preocupação
de muitos funcionários. Mas pequenos cuidados, como organizar
o tempo e ser transparente com a chefia, ajudam a deixar a rotina
mais equilibrada.
FLÁVIA
MAIA
O dia ainda nem começou,
mas a agenda amanhece cheia. Pela manhã, levar os filhos
à escola, depois correr para o trabalho. À tarde,
é preciso saber se as crianças estão se
alimentando bem e se fizeram os deveres de casa. Isso sem esquecer
os serviços do escritório. À noite, é
hora de tirar as dúvidas dos exercícios escolares.
Enumerando dessa forma, percebe-se o tanto que a rotina de quem
tem filhos e trabalha fora exige fôlego. Só quem
realmente vive essa situação tenta driblar o tempo
e conciliar as atividades profissionais e familiares.
O desafio de participar cada vez mais da educação
dos filhos e construir uma carreira dentro da empresa inquieta
profissionais de diversos campos de atuação. Há
quem prefira escolher um ou outro. Mas especialistas garantem
que o caminho da conciliação é possível,
desde que alguns cuidados sejam tomados tanto pelo profissional
quanto pelas empresas.
A tendência das organizações
modernas é a compreensão de que o funcionário
precisa dar atenção à educação
dos filhos e que, se ela dificultar isso, poderá comprometer
a produtividade do profissional preocupado. Porém, Nelson
Fender, professor da Veris Faculdades e Carreiras, orienta aos
empregados que sejam transparentes sempre. Caso contrário,
a relação de confiança com a chefia pode
desmoronar. “Avise antes ao gestor sobre o calendário
escolar do filho e tente negociar esse horário fora do
trabalho com banco de horas ou ultrapassando o expediente. Ele
vai entender, afinal, também deve ter uma família”,
aconselha.
Nesse raciocínio, a assertiva de que chefes
preferem os solteiros não funciona. “Uma empresa
precisa ter todas as gerações. O pai e a mãe
de família têm a vantagem de serem mais maduros,
saberem trabalhar em grupo e conseguirem negociar melhor porque
fazem isso em casa. Além disso, os solteiros vão
casar um dia”, defende Carmen Cavalcanti, diretora da
Rhaiz Soluções em Recursos Humanos.
A professora de informática Ana Roberta Crisóstomo
de Morais, 41 anos, geralmente sai pelo menos duas vezes por
mês do trabalho para acudir um dos dois filhos em situações
emergenciais na escola. Ela confessa que o chefe não
gosta, mas não proíbe. “No fim, atrapalhar
meu trabalho não atrapalha. Inclusive, esse vai e vem
deixa a vida mais emocionante, porque no fim tudo dá
certo”, diz, sorrindo.
Em relação às emergências,
os pais devem ficar atentos. Já que nem sempre é
necessária a presença deles, a constante saidinha
pode atrapalhar a imagem profissional. As ligações
excessivas também devem ser banidas. O professor Nelson
conta que tinha uma funcionária cujo filho ligava de
cinco em cinco minutos. “Eu estava dando um curso para
ela e, em uma hora, o filho ligou 10 vezes. Isso já ultrapassou
o bom-senso”, analisa.
Para evitar esse tipo de situação,
a enfermeira Ana Laura Larrosa, 31 anos, conta com a mãe
e o marido. Afinal, ela sozinha não consegue dar toda
a atenção que os filhos de três, sete e
nove anos exigem. Para que a família esteja sempre presente
e as crianças se sintam prestigiadas e amparadas, eles
se dividem.
Decisão acertada, segundo a especialista
Carmen Cavalcanti. “Nas áreas de trabalho em que
não existe flexibilidade no horário, os pais precisam
criar uma rede da educação. Isto é, compartilhar
as atividades escolares entre pai, mãe, tia, avó...”.
Em casos como o de Ana Roberta, cujo pai das crianças
mora em Fortaleza (CE), o jeito é negociar com a irmã
e até com a mãe de outros colegas. “Não
sei como dou conta”, exclama.
Já a enfermeira Ana Laura precisou também
de uma promoção para ajustar melhor as agendas.
Como a maioria dos profissionais de saúde, ela trabalhava
em escala mista, isto é, em horários diferenciados
e em plantões aos fins de semana. Quando foi promovida
no hospital, a primeira coisa que fez, para a alegria das crianças,
foi fixar o horário de segunda a sexta, das 7h às
16h. “O melhor é ter todos os sábados e
os domingos em casa”, comemora.
Para os pais com horários mais complexos
e que tenham dificuldade de comparecer a reuniões e eventos
escolares, algumas escolas já disponibilizam, em seus
sites, a agenda escolar e imagens em tempo real das crianças
na escola. O e-mail também virou uma ferramenta poderosa
de comunicação. “A internet deixa o pai
informado, mas ela não pode substituir a ida dele à
escola, a participação efetiva é importante”,
ensina Divaneide Lira Lima Paixão, doutora em psicologia
e professora do curso de pedagogia da Universidade Católica
de Brasília.
Falta
incentivo dos chefes
Enquanto em empresas asiáticas
pais que acompanham a vida escolar da prole são bem-avaliados,
58% dos brasileiros reclamam por não terem tempo de ir
à escola das crianças.
``A relação com os professores
e coordenadores é muito importante. Se tem alguma coisa
realmente grave, eles me ligam´´
Ana Roberta Crisóstomo de
Morais, professora de informática
Um choque de interesses. É assim que
vivem profissionais com filhos em idade escolar. Segundo a pesquisa
Educação na agenda do próximo governo,
realizada pelo grupo Ibope Inteligência, pelo movimento
Todos pela Educação e pela Fundação
SM, educação e emprego estão no mesmo patamar
de preocupação dos brasileiros no que diz respeito
à elaboração de políticas públicas
no Brasil. Ou seja, para papais e mamães, tanto a educação
dos filhos quanto o emprego deles são essenciais para
um futuro melhor. O mesmo levantamento aponta que 90% dos entrevistados
concordam que é obrigação da família
participar ativamente da vida escolar dos filhos.
Em países asiáticos, como o Japão
e a Coreia do Sul, a participação dos responsáveis
é tão efetiva que as escolas oferecem cursos para
que os pais fiquem em dia com a lição dos filhos.
Além disso, em muitas empresas, os funcionários
ativos na educação das crianças ganham
pontos positivos na avaliação de desempenho. O
reflexo dessa participação aparece nos bons índices
educacionais dos dois países e, consequente, no crescimento
econômico deles.
No Brasil, não existem políticas empresariais
nem iniciativas escolares nesse perfil. Por isso, 58% dos pais
das regiões metropolitanas dizem que não têm
tempo de ir à escola e 60% não sabem ajudar quando
os filhos têm dúvidas, segundo dados da pesquisa
A participação dos pais na educação
de seus filhos, também do Ibope, da Fundação
SM e da movimento Todos pela Educação, divulgada
em 2009.
No Distrito Federal, desde 1993, existe a Lei nº
449, que concede aos servidores distritais o direito de um abono
bimestral para comparecer às reuniões de pais
e mestres. Mesmo assim, as escolas precisam ser criativas para
atrair os responsáveis que não são amparados
por lei e os que têm dificuldade de dialogar com os chefes.
A Escola Classe 415 Norte, por exemplo, procura
marcar reuniões no início dos turnos, quando os
pais estão deixando os filhos no colégio. Além
disso, já deixa pronta uma declaração que
possa ser apresentada aos chefes. “O quorum de pais aqui
é até bom, mas precisamos sempre criar estratégias
para conquistá-los”, ressalta Nailda Rocha, diretora
do colégio.
Aproveitando da interdisciplinaridade, a escola
reduziu o número de cadernos dos alunos. Em vez de cinco,
agora existe apenas um, que comporta todas as matérias.
“Fica mais fácil para o pai perceber o avanço
do filho”, explica a diretora Nailda. Realizar campanhas
com os alunos, criar elementos para os pais se lembrarem da
reunião, como ímãs de geladeira e convitinhos
especiais, são alternativas da escola para atrair os
responsáveis pela criança.
A luta da escola tem dado certo e conquistou Ana
Roberta Crisóstomo de Morais, que transferiu os dois
filhos para lá. “A relação com os
professores e coordenadores é muito importante. Se tem
alguma coisa realmente grave, eles me ligam. Fico mais tranquila
e sempre busco saber o que está acontecendo”, diz
a professora de informática.
Ana Roberta lembra que a outra escola chegava a
atrapalhar o seu desempenho profissional por causa do número
de ligações e bagunça no calendário
escolar. Por isso, o bom senso da escola é imprenscindível
para uma relação saudável com os pais.
“A escola tem que ter critérios, em um caso de
saúde, tudo bem chamar a mãe, mas uma briguinha
entre colegas dá para avisar em outro horário”,
analisa Nelson Fender, professor da Veris Faculdades e Carreiras.
Bom também
para os filhos
A presença dos pais nas escolas tem
efeito também no futuro profissional da prole. Quando
os pais entram em cena, as notas dos filhos podem melhorar em
até 20% segundo a pesquisa Determinantes do desempenho
escolar no Brasil, realizada pelo IBMEC em 2008. A pedagoga
Divaneide Lira Lima Paixão, professora da Universidade
Católica de Brasília explica que a presença
dos pais na educação formal é importante
porque, ao verem os pais na escola e as incentivando, as crianças
percebem a razão de estudar. “Levar, buscar na
escola, conversar com os professores têm que ser atividade
dos pais, independente da escolaridade deles. Esse conjunto
de ações vai dando noção para a
criança de que essa é uma etapa importante da
vida dela”, explica.
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